3 de dez. de 2009

Em poucos segundos

O tempo vai passar e a vida vai seguir seu curso, sem parar, sem esperar.

O tempo vai passar e estaremos em outras camas, abraçando outros corpos. Nossas mãos acariciarão outros cabelos, outras peles, outros pêlos. Nossas cabeças deitarão em novos travesseiros. Não esperaremos ligações, nem cartas, nem mensagens, nem cartões.

O tempo vai passar e os dias se arrastarão. Entre fragmentos de horas, nossos olhos, coincidentemente, se encontrarão. O tempo vai passar e em ondas sonoras as músicas não mais me comoverão; entre uma balada e outra, posso lembrar de um outro alguém, ainda que fosse de você a memória mais marcante.

O tempo vai passar e vamos ler outros livros, na tentativa de viver novas histórias, outros romances que não o nosso. O tempo vai passar e minha habilidade para desenhar continuará se limitando a flores, folhas e corações. Corações com outras iniciais. E ainda que fossem as mesmas, não seriam as nossas.

O tempo vai passar e não passarei sem querer na sua rua, por simples força do hábito. O tempo vai passar e vou ver meus hábitos mudarem, sem sequer me esforçar.

O tempo vai passar e a curiosidade pelas nossas novas vidas vai aumentar até hibernar. Seremos automaticamente induzidos a nos procurar e lutaremos contra a vontade de nos encontrar.

O tempo vai passar e eventualmente vamos nos esquecer de alguns detalhes. O tempo vai passar e vamos nos perder em lembranças e seguir em frente, sem mais querer lembrar e não querendo esquecer.

O tempo vai passar...

25 de nov. de 2009

Tá falado

Se não passa, demora
Mas se passa, vai embora.

Passa! Não me amola.
Não sou trocado, não dou esmola,
Não faço fiado,
Nem encho a tua bola.

Se toca, não rola!
Não sou bem-bolado;
Não quero nem pintado
Teu retrato estampado,
Nem teu corpo suado,
Nem teu aroma de amora.

Vai, vaisimbora
Que agora já é hora,
O sol nasceu quadrado
E por mim já não é mais amado.
Tá falado
E o dito não mais me apavora.

12 de nov. de 2009

Progressão frenética

Apenas uma lei me guia: a da minha consciência.
Apenas uma guia me segura: a do meu limite.
Apenas um limite me ultrapassa: o da minha ansiedade.
Apenas um anseio me atormenta: o da certeza.
Apenas uma certeza me basta: a minha consciência é a lei do meu limite e minha ansiedade pela certeza me segura no presente.

3 de nov. de 2009

Quanto vale mais que mil palavras?

Eu adoraria dizer que o ponteiro marcava nove horas e vinte e dois minutos, mas não tenho usado relógio tem quase dois anos. É por isso que direi que a função relógio do meu rádio marcava 9:22 AM. O relógio do rádio do meu carro marcava 9:22 AM. Eu já começava a pensar que iria chegar após as 9:30, sendo que esse é o horário máximo tolerado lá na agência. E eu quase nunca cheguei a essa hora, então não posso dizer efetivamente que me preocupava, apenas pensava no inevitável atraso.

Lá estava eu, no meio da manada, inalando muito CO2 e tentando completar os poucos quilômetros que me faltavam. Queria lembrar o que tocava no rádio naquele instante, mas não consigo. Me atentarei somente ao que me lembro (provavelmente é o que importa).

O calor era quase enlouquecedor. Eu gostaria de dizer que estava na praia, deixando o sol queimar minha pele, permitindo o suor escorrer pela minha testa, autorizando a água de coco gelada a matar minha sede. Mas estava apenas no meu carro, quase chegando à ponte Cidade Universitária. O sol, querendo ou não, queimava meu braço esquerdo e me fazia pensar que o "braço de caminhoneiro" estava voltando pro meu corpo, passados 8 meses e algumas idas ao Rio de Janeiro na tentativa de igualar o tom do direito e o esquerdo. O suor, involuntariamente, corria pela minha testa e eu mentalizava apenas um objeto durante seu trajeto: o santo e divino aparelho de ar condicionado. A água de coco na minha mão era daquelas de caixinha mesmo. Quem não tem cão, caça com gato, amigo.

E foi entre um gole e outro e entre a primeira e a segunda marcha que algo completamente inesperado, inusitado e louco aconteceu. Desobvialize e tente imaginar. Te dou alguns segundos para isso.

(1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13,14,15,16,17,18,19,20). Alguma idéia? Seja lá qual for, não foi isso que aconteceu.

Eu não esperava nada daquele trânsito. Não esperava que ele melhorasse (eu não me engano!), nem que piorasse (eu tenho esperança, tenho fé). Não esperava nenhum "homem da minha vida" (parei com isso!), nem ninguém pra me assaltar ou bater na minha traseira (tenho certeza que tem gente que vive pensando nisso no trânsito). Eu só queria mesmo era estar na praia. Mas Deus havia reservado outra coisa para o meu dia.

Estava ouvindo alguma música, tomando a água de coco e olhando através do vidro direito, do passageiro. Ele estava fechado e eu, na verdade, olhava para o carro ao lado para ver se ele tinha me dado passagem, pois queria trocar de faixa. Minha visão periférica somada ao meu impulso, totalmente involuntário, levou minha cabeça abruptamente a mirar para o lado esquerdo. Meu vidro estava totalmente aberto. Olhei rapidamente para o lado e dentro de um carro popular estavam um senhor, que dirigia, e uma senhora, entre os 50 e 60 anos de idade. O vidro dela estava fechado e não tinha insulfilm. Eu a encarei e só consegui pensar em uma coisa: eles têm ar condicionado. Já aquela senhora me encarou por talvez 1 segundo e meio e sabe o que fez? Sorriu pra mim. Abriu um enorme e estonteante SORRISO e isso me deixou totalmente sem reação. O trânsito esboçou um caminhar e o carro dela andou o suficiente para desemparelhar do meu.

Aquilo me tirou do eixo. Sério, foi muito doido. Eu dirijo há apenas 6 anos, mas isso já é tempo o bastante para dizer que em todos esses anos algo assim nunca tinha acontecido comigo. Você consegue se imaginar sorrindo para alguém nessas circunstâncias? Eu não sei com qual intenção ela sorriu para mim, nem sei se esperava um sorriso de volta. Mas o sorriso dela, se pudesse falar, me diria: "Bom dia! Tudo bem? Poxa, te olhei e fui com a sua cara, sabia? Você parece ser uma menina legal. Que bom que está tomando uma água de coco, mesmo que industrializada. Ao menos não é uma lata de Coca-cola em plenas 9 horas da manhã. Refrigerante, principalmente de manhã, faz mal, sabia? Bom, menina, tudo de bom pra você. Bom trabalho, boa vida. Um beijo, tchau".

Valeu pela originalidade, pela simplicidade, pela espontaneidade. Valeu por um dia inteiro de qualquer coisa que fosse.

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Esse pequeno gesto numa manhã quente e congestionada valeu mais que mil imagens.

21 de out. de 2009

Sinais em branco

Há tantas linhas em branco à frente;
Me destrói a falta de inspiração que está por vir
Cruzo os braços e as encaro
Na tentativa de convencer-me no medo
Que o que há de ser dito será,
Que o que precisa ser falado não se calará

E numa gigante pausa esbarro uma antiga lembrança
Me deparo com uma falsa esperança
De te ter pra sempre, ao menos no pensar
De te ter só pra mim, que seja no sonhar

Que bobagem, tolice!
A página só até o meio existe e
Até seu fim não conseguiria traduzir
O que me causas, o que sinto,
O que me faz rir e não me deixa dormir.

E sem me valer de exatidão
Divago sem roteiro, sem bordão
Me atrapalho, pedalo sem guidão
E chego, finalmente, à uma vã conclusão:
O que me convém não me mantém
E na semana que vem volto ao início.
Tomo ar, chego ao topo;
Volto ao começo do meu fim.
E meu eu ri de mim. Ri de mim.

6 de out. de 2009

Uma carta pra você

Se eu fosse te escrever uma carta, seria pra dizer o quanto gosto de você. Falaria sobre seu sorriso, seu jeitinho, seu carinho e seu humor. Sobre seu beijo, seu abraço, seu colo e principalmente seu olhar que me diz tanto. Sua dificuldade com palavras, seu jeito de dizer sem jeito coisas bonitas que fazem ‘aquele dia’ ter valido a pena.

Se eu resolvesse escrever uma carta, seria para falar tudo que me irrita em você. Para reclamar do seu descaso, da sua ausência e mais que tudo, desse espaço físico e temporal que você provoca entre nós. Do seu jeito sem jeito de dizer poucas coisas que procuram justificar seus atos (ou falta deles) e que me convencem, mas que não acarretam nenhum tipo de sustentação. São apenas palavras.

Se eu realmente te escrevesse uma carta, seria para te mostrar que pode ficar tudo bem. Que o que passou, está perdido no passado e guardado nas lembranças. Que muitos momentos, felizes e não, fizeram parte das nossas vidas e nos transformaram no que somos, mas não estão fazendo parte do nosso presente. Que a vida está aí pra ser vivida e não temida. Que sempre chega a hora de mudar, e principalmente, de arriscar. Que medos existem para serem enfrentados. E que cada fase de nossa vida é singular e traz diversas surpresas e novas lições.

Se eu pudesse escrever uma carta, assumiria meu cansaço. Meu desgaste. Minha decepção. Minha fraqueza. Contaria sobre como nada parecia ser por acaso. Mas de repente, muito tempo se passou, e nada mudou. Algumas coisas se repetiram. Muitas vezes acreditei que pudesse ser diferente, mas como eu disse: nada mudou. Falaria sobre o quanto você me frustra a todo momento.

Se eu quisesse escrever essa carta, eu tentaria explicar o porque de tanta teimosia. O motivo pelo qual você não sai da minha cabeça. Talvez eu me confundisse no decorrer dela e escrevesse a carta para mim mesma. Tentando me convencer a não desistir, sem mesmo saber o por quê. Talvez eu percebesse que não existem motivos para insistir, e descobrisse que é melhor pra mim deixar isso tudo de lado e admitir que não era o que eu pensava. Eu estive errada esse tempo todo.
Talvez eu invertesse tudo e tentasse te convencer que você quer tanto quanto eu.

Se eu fosse te escrever uma carta, eu não saberia por onde começar. Nem exatamente o que dizer.
Por isso nunca levei a sério a idéia de te escrever.

04/2008

14 de set. de 2009

O caso da tampa da privada

Depois de 6 anos de namoro, 4 de casamento e o filho de 1 ano, eles vão se separar. Foi por isso que ligaram para o Dr. Arantes, um advogado especialista em separação. O motivo? Ela não suporta mais ver a tampa da privada levantada.

O Dr. Arantes já tinha trabalhado em casos bem bizarros. De separações nervosas. De mulheres histéricas à margem da loucura. De maridos cachorros à cavalos. Mas até agora, nunca tinha pego um caso como esse.

Na primeira reunião com o casal, o Dr. Arantes questionou o motivo da separação e ouviu da esposa, entre muitas coisas, o caso da privada. Ela dizia, com sangue nos olhos, que chegar ao banheiro e ver aquela privada à vista, destampada toda vez, era demais! Ele revirava os olhos. O Doutor queria rir, mas a sua imbatível ética não o permitia.

Pela conversa, parece que a privada fora o estopim, a gota d'água, a faísca que acendeu o trilho de pólvora. Mas antes disso teve o problema da porta do armário da cozinha. Não tinha quem fizesse aquele homem pegar um copo pra beber água no meio da noite e depois fechar a porta do armário. E colocar o copo dentro da pia depois era pedir demais! E ela nem se deu o trabalho de explicar muito aquele caso do sabonete com pêlos, só comentou assim, de passagem. Afinal, bastou um xilique para ele nunca mais fazer isso. Um não, foram dois, mas ela só lembrou do primeiro. A primeira vez a gente nunca esquece...

Enquanto ela destrinchava toda sua ira conjugal, ele ouvia calado, de braços cruzados e dentes cerrados. E o Doutor de cara pálida, só esperando o momento do sacrifício final. Parecia que nada poderia piorar. Mas ele estava errado: nada está tão ruim que não possa piorar!

Após 38 minutos cravados da melhor consulta que o Dr. Arantes já havia feito em toda sua carreira como advogado, temeu por sua vida e pela memória de seus antepassados, mas perguntou:
- Senhora, são ESSES os motivos que a levam querer separar-se de seu marido?

Se arrependeu pela enfase dada ao "esses" e antes que ela pudesse balançar a cabeça como quem diz sim em caixa alta, seu ainda-marido entonou:
- Doutor, esses são os motivos dela. São vários, como o senhor pode ouvir. Mas acho que tenho o direito de dizer algumas coisas. Gostaria de dizer porque concordo com essa separação, assim encerramos de uma vez essa reunião - e esse casamento.

O Doutor Arantes teve um comichão de curiosidade e, nervoso com a possibilidade da mulher interromper o marido, apressou-o:
- Claro, meu filho. Diga, diga logo.

- Doutor, é simples. Passar algum tempo sentado na privada é mil vezes mais agradável do que sentar do lado dessa mulher no sofá. Eu assisto horas e mais horas de televisão ouvindo seus resmungos. Chego a desejar uma diarréia eterna, só para poder passar mais tempo sozinho, no silêncio que a privada me proporciona. É nessas horas que esqueço de abaixar a tampa, pois estou sendo feliz e isso me distrai. Abrir a porta do armário da cozinha é infinitamente melhor que abrir a porta do quarto e me deparar com esse bagulho roncando toda noite. Deve ser por isso que a esqueço aberta: é muita emoção! E, por fim, há anos tenho tido mais prazer com os sabonetes na hora do banho do que com ela na hora do sexo.

6 de set. de 2009

Manifesto da minha decisão

Decidi buscar a beleza nas suas mais variadas formas, nas suas mais inusitadas aparições.
Decidi não forçar a felicidade a sorrir pra mim, mas deixá-la a vontade para ir e vir - do livre arbítrio todos podem gozar, pois lhes é de direito.
Decidi que o dinheiro também não vai pagar a minha paz e que talvez nem queira mesmo tê-la, custe o que custar.
Decidi que da minha vida cuido eu, mas me dou o direito de dividir com muitos algumas das minhas alegrias.
Decidi que constituirei uma família e que isso vem a depender unica e exclusivamente da minha vontade e da minha energia e, bem provavelmente, do produto dessa soma.
Decidi que a noite é feita para domir, mas que eu determinarei a hora que ela começa e termina.
Decidi que meus sonhos são apenas sonhos e não presságios. Mas que podem sê-los, se eu bem entender, se me convir.
Decidi que o equilíbrio é mais que um princípio universal: é a minha nova lei. "Desrespeite-o e sofrerás".
Decidi que minhas partes formam meu todo e que devo emprestar atenção igual a todos.
Decidi que cada dia é uma nova chance, um recomeço.

Decidi que cada decisão há de ser tomada no embalo da indecisão.
Decidi que tudo que eu fizer, é somente porque o quero fazer.
Decidi que nada que eu quiser, é somente porque não quero ter.

4 de set. de 2009

Daqui até lá

Tô aqui pensando no revés do êxodo rural. Ele têm que acontecer. Ou é ele, ou é guerra civil. Eu, como sou da paz, fico pensando que devo jogar nesse time do revés. Eu não vim de outro lugar. Aqui fui concebida, aqui fui criada, aqui estou - amargurada.

SP não me dá tanto tesão. Eu amo esse lugar, mas a gente bem sabe que tesão e amor nem sempre coexistem, não estão entrelaçados o tempo todo. Dá pra fingir orgasmo nisso também, zenti. A gente vai até o Centro, tira umas fotos, acha lindo. Entra no grupo I (L) SP do Facebook e voilá! Fingido está.

É um efeito borboleta, literalmente falando. Depois da lagarta virar borboleta, ela dura dias ou poucos meses só na beleza, depois padece. Se vai. Rápa fora. Vaza. É isso aí que acontece, a beleza dura pouco, envelhece logo e morre sozinha.

Eu não quero viver na escala de cinza, desculpa. Preciso de outros tons, com Ts maiores!

Se um dia eu pular nesse revés, vou de branco, de paz, de neutro, de todos os tons e cores. Vou sem passagem de volta, mas com a opção de voltar. Sem despedida sem volta, mas com a opção de chorar.

21 de ago. de 2009

No meio.

Nunca estamos preparados. E nunca estaremos. Nunca ficaremos serenos nessas horas que imploram por serenidade, por paciência, por tranquilidade.

Dentro de nós forma-se um ninho emaranhado de dúvidas, questionamentos, anseios, desejos, vontades, dores, pensamentos e vazio. Um vazio enorme, capaz de abrigar tudo e nada, de uma só vez, num mesmo momento.

Em pensar que nos falta tudo - do preparo às respostas - vemos que não falta nada. Não há nada que possa ser feito (ou pudesse ter sido feito), nada que possa ser explicado ou respondido adequadamente. A vida é assim. Os fatos são esses. E as respostas não existem.

Em meio a tudo isso, surge uma só coisa: a fé. Tão inexplicável quanto tudo em que está inserida, ela surge branca e pura, virgem e solitária, forte e inabalável. E, aos trancos e barrancos, o tempo passa. Ora com pressa, ora na valsa.


Paciência


Composição: Lenine e Dudu Falcão

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

12 de jul. de 2009

Fria inspiração

Inverno inspira filme, pipoca e cobertor.
Quatro pés enroscados e braços entrelaçados.
Corpos encaixados, suspiros no ouvido, cabeça no ombro e aquele beijo no pescoço.
Pede vinho.
Inspira o calor.
Calor de mãos escorrendo nas curvas e coxas intercaladas. Inspira corpo sobre corpo. Inspira abraço, amasso e cansaço.
Beijo na boca.
Dispensa os moletons e cobertores. Inspira o calor da sua pele na pele do outro.
Dois corações acelerando e pupilas dilatando. Corpos e almas aquecidos.
Inspira amor.

O inverno sempre vem.
Bate na janela em forma de vento e chuva e torna os dias mais sonsos e as noites apagadas, escondendo as estrelas do céu.
O frio esconde a lua. Esconde o sol.
Camufla a alegria na tristeza dos dias cinzentos tão preguiçosos.

O inverno esfria o corpo e aquece o coração.
Inspira até quem se acompanha de si mesmo.
A vista da janela. As luzes ao longe em meio à escuridão da noite.
As fotos, as lembranças, as lágrimas e os sorrisos.
O inverno inspira. O frio inspira.
Inspira todo e qualquer ser que tenha capacidade de sentir, viver e...se inspirar.

Bom inverno, seja lá quem for a sua companhia.


** Quebrando um pouco a rotina deste blog, faço uma indicação!
Escrevendo meu texto, lembrei de um outro de um amigo querido que devia escrever mais em seu blog.
Segue o link e meu agradecimento ao Nego que, mesmo sem intenção, uma vez na vida, falou minha língua...e cá está:
"Aos sentimentais.".

8 de jul. de 2009

Cavalos coloridos imaginários

Meu pouco apreço pelos esportes se aflora quando acontecem coisas como essa. Minha forte propensão pela realidade me volta a corar a fuça quando acontecem coisas como essa.

Não é a primeira vez (na semana, confesso) que me pego fazendo coisas como essa de procurar um grande amor no trânsito. Manja a história do cavalo branco? Alguns cavalos de potência e a cor que for. É isso que me preocupa, gente.

Não, não é a morte do Michael Jackson. Não, não é a gripe suína. (Nossa to desatualizada mesmo... Só me lembro disso como "últimos acontecimentos"). O que me tira do sério é isso de ficar quase 40 minutos nessa coisa de olhar pro carro do lado e achar que o nego tá olhando de volta. Na real ele só quer passagem. Ele tá de passagem, como todos os outros, eu sei.

Olhar no retrovisor, então, é uma enganação e tanto! Todo mundo parece bonito - e parece com alguém - quando olhado do retrovisor. Alguns vidros e espelhos associados ao nível entorpecedor de sono dão esse grau, juro!

Aí, na minha cabeça que já tá no piloto automático, claro, vem uma histórinha toda fantasiosa, 100% NÃO-EU: ele olha de volta, pede pra eu baixar meu vidro, eu baixo, ele fala qualquer coisa (ninguém nem buzina pra gente ir logo, pra você ver o nível da fantasia) e pronto! Bateu, levou.

Acordo numa freada mais brusca. O coração já palpita e não é de nada que não seja o medo de enfiar o carro na bunda do carro da frente. - E se ele for um gato? Só batendo pra ver.

NÃÃÃO!
É caso de internação, doutor? Parece grave...

E o pior de tudo é quando imagino aquela cena, que nem em filme existe mais, do celular sendo jogado no carro alheio. Qual a chance de eu acertar a janela dele e não a porta? Nem sequer daria certo abrir o vidro do passageiro: a manivela do vidro do passageiro fica longe demais (valeu, Berinja!) e eu quase sempre desloco o ombro para tentar abrir esse raio de janela.

Gente, quase nunca acertei o gol na educação física! Quem eu quero enganar com esses devaneios senão esse meu maldito alterego que vive dentro de mim?

Quem me conhece que diga o quão previsível é minha predileção pelo certo. Prefiro a saudável realidade que me envolve, de certo. Desculpa se os desaponto, mas não sou eu a tua conhecida que tem uma história genial pra contar. Isso não daria um filme. No máximo um roteiro de consulta psquiátrica. No máximo.

17 de jun. de 2009

Wishlist #0

Eu ia começar dizendo para que nunca se contentem com pouco, mas preferi dizer isso de uma outra forma, então vamos lá. Começando de novo.

Defina seu pouco ou seu muito. Defina o seu. Daí, trace uma linha, qualquer que seja (curva, diagonal, reta, tracejada), e só se contente quando se sentir contente. E espero que isso nunca aconteça.

Além de não contente (que é diferente de descontente), desejo que nunca se dê por satisfeito e sempre se questione: "é isso que quero para mim?", "esse é o meu lugar?", "então essa é minha vocação, como eu sei?", "vou ou fico?" (...)

Espero, de coração aberto, que você se coçe até se marcar, que chore até cansar e se desespere... Até desistir. Desistir para recomeçar. Quero que parte disso ou isso tudo aconteça com você e que você, paulatinamente, encontre seu anti-séptico, seu cicatrizante, sua cura, seja ela qual for.

Quero que você sua vida seja regada de ações e reações - e ela será, quer queira, quer não queira, como diria Tim Maia.

Que todas as leis da física, da natureza e do homem (até do maior Deles) caiam sobre você e que seja contente dentro de todas suas incertezas.

Por fim, gostaria que encontrasse o final da sua linha e que seu fim fosse o começo. Recomeço.

29 de mai. de 2009

Porta-saudades

E lá onde a terra é a areia
E traz a energia,
Onde o sol recebe a lua
E deseja-a um bom dia

Por lá, onde o infinito chega logo,
O vento passa e nem entorta
O coqueiro alto que, debaixo, quase esbarra no céu.
É por ali que se sente a vida mesmo, assim como ela é.

Num encontro eterno e perfeito do doce e salgado
Se acompanha o desejo que alguns têm
De nunca mais voltar
Mesmo com dia e hora pra dizer até e se desapegar.

Por alguns caminhos vai te encontrar com água
E nela o sal, as pedras, as pessoas e almas de Iemanjá.
De noite, o céu se forra de estrelas,
Algumas parecem poeira de diamante
Que só se prestam a brilhar.
Já outras caem de um lado para outro,
Como dois velhos a se embriagar.

Num bar, a sandália topa num pé descalço e ribeiro
Ou num chinelo de dedo,
Mas nem te esquenta que num giro já te botam pra lá
E logo vais a afirmar
Que o dinheiro só serve para, de graça,
Aprendemos a viver e a sonhar e a pensar
Que se pode sempre comprar passagens rumo à felicidade,
Daquelas polvilhadas com um punhado de paz.
Daquelas repletas de poucas coisas.
Do suficiente para sorrir.
Do eterno para amar.
Do bonito de se olhar.
Do bastante para se encantar.

27 de abr. de 2009

Memimcomigo, sesiconsigo

Queria apenas uma boa razão para te dar ouvidos. Me dê um (grande e) bom motivo para despistar meus pensamentos, meus assertivos devaneios, e mergulhar de olhos fechados nesse seu discurso oceânico – azul, profundo, imenso.

Não é medo (não que ele não exista: ele mora na casa 3 de uma ruela qualquer da minha massa encefálica e como casa de campo tem meu coração). É quase uma curiosidade, por assim dizer. E curiosamente, me pego a espiar e penso: quem é você, além do que diz seu nome, além dos seus pais, do seu passado e do que mostra? O que você é, especificamente para mim?

Após uma breve avaliação do produto, soma destas interrogações, novamente me causo dúvida: como te deixei entrar aqui, só com isso?

Me assusta perceber que me avalia bem, que me entende sem eu nem bem me explicar (como se isso, sequer, fosse possível!), que me quer bem sem nem bem me conhecer (eu, incógnita de mim mesma). Não pode ser apenas pelo fato de ser sinônimo de boa companhia, boa conversa, boas risadas, bons momentos, bons conselhos, boas histórias, boa sintonia, boas vibrações e boas energias.

Pode? (...)
Vai, vamos lá: apenas um bom motivo.

23 de abr. de 2009

Pra valer a viagem

Buscamos conforto. No abraço, no sofá, no pensar, deitar, ouvir, deixar, sonhar, vestir, sentir, olhar.

Não dá pra generalizar, mas, no geral, acredito que é assim que funciona a coisa toda: por conforto se busca amor. Também por conforto se busca fé. Ainda para estar confortável se busca morada. Na tentativa de sentir-se confortável buscam-se opiniões, aceitações, localizações, direções ou diretrizes, confirmações, retorno e retomadas.

E aposto toda minha fortuna como conforto e escolha são dois pólos positivos, que jamais se atrairão, jamais se encaixarão. E nessa disputa energética reside, ao menos à mim, uma grande ironia: para escolhas aparentemente corretas afirmamos o confortável alívio da certa decisão. Já para escolhas marinadas em dúvidas, nos apoiamos no conforto de uma contrapartida qualquer, sem qualquer embasamento convincente, presos à uma certeza incerta pelo simples conforto de se acreditar.

29 de mar. de 2009

like zeca said

Você tá amarelo que é de ficar velho, ficar guardado em casa.
Você tá antigo que é de ser chato, sem graça, sem cor nem raça.
Você não tem eira, nem beira, nem uma feira que seja sua como a sexta é nossa.
Você tá esquecido porque na gaveta da novidade você não mora mais, caiu de lá pro fundo do armário onde o pó virou realidade e a luz, saudade.
Você tá acabado porque nem começou e já se entregou; cortou o caminho e se rasgou no abismo.
Você tá sozinho porque negou companhia, preferiu comida fria no prato da vingança e de sobremesa traçou orgulho ferido, derretido.
Você tá às traças porque por onde passa arrasta o podre e o mofado, a pura e sem graça desgraça.
Você é um recorte que não se encaixa, um lego fora da caixa, um buraco no começo do tetris, um quebra-cabeça antigo com peça faltando e de desenho que não se decora jamais.
Você é um salgado sem sal, um amargo frescor, uma doce solidão.

Você é triste, tristinho. Você é só, sozinho.

23 de mar. de 2009

Canis Amare

Tão pequena, tão frágil. A idade avançada não a fez perder a juventude que transborda a cada pulo, corridinha ou abanada no rabo.

Hoje cheguei em casa e nenhum sinal de você. Nem um cheiro, nem uma alegria, nem um esboço. Imóvel, presa na mesma posição há horas, ela mantém um olhar distante, porém não frio. Olhando fixamente para o nada, nada diz nem parece dizer.

Vi tua respiração forte por cima da coberta. Agachei, sentei, preparei os dedos e comecei. É tudo que posso te dar, já que não bebe, não come, não chora, não dorme.

Enquanto faço um cafuné, lembro do quanto te quis quando era pequena. Chorei, fiz greve de fome, fiz minha irmã, então com 2 anos, implorar junto comigo. Ela aprendeu várias palavras novas durante meses e repetia tudo na mesma intensidade que eu.

Chorei quando te quis, choro com medo de viver sem você. Pode parecer bobagem, mas você é a alegria mais sincera que eu já conheci e a idéia de viver na lembrança me chateia um pouco; é uma mudança que não gostaria de ter na minha rotina.

Das coisas mais óbvias, meu afeto por você é o maior. Aqui todos te amam, mas eu te olho e vejo o que nem todos veem: a melhor amiga que tenho.

8 de mar. de 2009

Até que o sábado os separem

É claro que vários/muitos homens querem ficar solteiros e não trocam isso por nada (ou quase nada). Não está claro pra você, caro(a) leitor(a)? Dá a mão pra titia que a titia mostra como é fácil de entender.

Andando pela rua, em plena terça-calorenta-feira, me deparei com o Frangó, um simpático bar da Freguesia do Ó, lotado. Lotado de homens, lotado de mulheres, lotados de homens e mulheres. No próximo quarteirão já veio o insight pro meu novo devaneio: por que diabos um homem vai querer se comprometer com uma mulher que vai sim proporcionar carinho/companhia/sexo periódico e otras cositas más, mas, em contrapartida, vai apurrinhar a vida dele com micro-coisas insuportáveis como ciuminhos estúpidos e sem sentido como o simples fato de se olhar pro lado (ok, ou pra uma mulher gostosa), implicância com o futebol de sábado com um bando de macho barrigudo e potenciais carecas, o trabalho que o consome (e não a secretária que ela acha que ele come) ou até mesmo uma pausa pra cerveja gelada em plena terça-calorenta-feira à noite? POR-QUE? Melhor ficar solteiro, não?

SIM!

Olha só um pouco do que ele pode fazer solteiro: satisfazer-se sexualmente com várias das danadas espalhadas por aí (não se iluda: a gente bem sabe que tem de monte por aí. Até porque, quando a gente quer, somos uma dessas também); tomar cerveja de segunda à domingo, se ele bem entender; jogar futebol ou videogame a tarde inteira do sábado, sem ter que aturar ninguém reclamando, já que ele não faz isso todo sábado; pode olhar pra qualquer gostosa, esteja ela perto, longe, de frente, de costas ou de lado; na hora da carência é só ligar para aquela ex encanada nele até hoje, ou até mesmo chamar a FF (foda fixa seria a tradução de FF, mas se preferir AC - amizade colorida, tudo bem).

Meninos, com licença. Essa é pras garotas: ah, garotas! Qualé?! Deixa o cara fazer o que ele tá a fim! O que é que
tem de mal? Enquanto ele faz o que tem vontade, você faz o que VOCÊ tem vontade, mas sempre desencana ou adia porque esquece da SUA vida, das SUAS necessidades e vontades pra viver a vida (ou consumir a energia) do pobre coitado do seu namorado.

Verdades absolutas não existem, mas o que direi a seguir é como se fosse a única verdade absoluta que você vai ter na vida um dia, além da certeza do fim da vida: não existe uma pessoa ideal. Sabe porque? Porque existem várias pessoas ideais. Então, antes de ficar com medinho (você de perder o cara, e você de largar essa menina) pense nas tantas pessoas ideais que a vida pode te entregar de bandeja.

Deu pra entender agora?

27 de fev. de 2009

Sensações


Lembra.
Lembra de quem se foi.
Lembra do que era, e já não é. Simplesmente mudou.
Lembra daquela festa ou viagem que pouco durou.

Fecha os olhos.
Sente a brisa ouve os pássaros e as folhas das árvores.
Sente o gosto do bolo de fubá da vovó, ou do chiclete de canela que aquela amiga distante sempre tinha na bolsa.
Sente o perfume de quem um dia te fez feliz como você jamais pensou poder ser.

Agora abre.
Abre e olha do lado. Olha no brilho do olho daquele que te olha.
Olha bem fundo do espelho da alma de quem te faz falta e há tempos (ou não tanto tempo assim) você não via.
Abre, olha e registra.
Os cabelos, o sorriso, o lugar, os sons, as sensações...valorize qualquer detalhe.

Abraça.
Abraça forte.
Abraça como se fosse a última vez. E abraça assim forte todas as vezes que puder abraçar.
Abraça de novo e comemore a felicidade de nunca ter sido, realmente, a última vez.

Diga.
Diga o que sente.
Diga o que vê.
Diga o que quiser dizer.

Pisca.
Pisca de novo.
Fecha os olhos.
Agora abre.
Olha em volta...não há nada nem ninguém.

Sensação de vazio.
Sensação de alegria.
Sensação traiçoeira, de impotência e de ansiedade, que preenche e que prorroga.
Todas sensações derivadas de um só sentimento.


Um só sentimento de Saudade.

13 de fev. de 2009

Clichê sensorial

É como se fosse uma pedra no sapato. E por mais que essa pedra incomode, o fato de não tê-la encomoda ainda mais. É, é como se fosse uma pedra no sapato mas eu já me acostumei com a existência dessa pedra. E já nao sei se eu quero ficar sem ela.

É esquisito isso, mas o fato de me incomodar é diretamente proporcional ao prazer que essa pedra me dá. É a minha pedra. Na verdade, eu é que escolhi ter uma pedra no sapato. Eu coloquei ela ali e eu é que não quero tirar. É estranho, é esquisito, mas é como se eu QUISESSE ter uma pedra no sapato. Como se o fato de que alguma coisa que incomoda me mantivesse viva, me mantivesse sentindo, me mantivesse pensando, me mantivesse fazendo por onde.

É como se eu enxergasse a linha tênue que existe entre dor e prazer. É! É exatamente isso! Você já nao sabe onde termina dor e começa o prazer, e vice versa. É como se eu precisasse sempre provar pra mim mesma que dor é prazer e prazer é dor.

Eu não saberia escolher, mas eu ainda manteria essa pedra no sapato. Bem, eu poderia trocá-la. É, eu continuaria tendo uma pedra, mas nao seria essa. E me parece razoável. Eu poderia dizer que busco outra pedra. Aliás, é isso que eu digo: quero uma pedra nova pro meu sapato velho.

21 de jan. de 2009

Nunca é tarde demais para nada

É loucura total, mas a loucura é, muitas vezes, a coisa mais sã que fazemos enquanto vivos. Foi com esse pensamento que ela bateu asas e correu. Correu em direção ao trem das 23 que tava de saída.
- Segura, moço! Por favor!
Balançando a cabeça pra baixo, inclinando o queixo em direção ao pescoço, ela agradeceu.
Balançando a cabeça pra baixo, encostando a barba no pescoço, ele retribuiu.

A loucura não era pegar o trem das 23. A loucura em questão era o que ela ansiava ao chegar no Centro. Decidira passar uma noite dormindo na rua. Já havia desistido de fazer com que entendessem sua vontade, mas insistia em explicar para si mesma:
- É sim. Quero poder olhar para os olhos dessas pessoas que cruzam meu caminho todos os dias e, mesmo sem mencionar nada com a boca, dizer com os olhos: "Eu sei o que você passa. Eu te entendo.". E quero dizer isso com propriedade, gabarito. Não quero mentir ou fingir que entendo. É sim. Quero isso.

Escolheu o Centro da cidade porque, apesar de ser o centro, o núcleo da sua casa, o conhecera muito pouco, talvez nada. Não seria o mesmo que dormir na calçada da sua Rua. Tinha que ser lá. Afinal, ela sempre quis conhecer bem o Centro. Era a oportunidade ideal.

Ao chegar lá, não tratou de escolher logo um canto, catar um papelão ou jornais. Deu uma volta a pé. Viu um bar aberto, com umas 10 pessoas ou pouco mais. Pensou em entrar e tomar uma cerveja, mas preferiu guardar o dinheiro para o dejejum. Viu a igreja pixada e iluminada e fez o sinal da cruz. Na sequencia balançou a cabeça, em reprovação a si mesma. Se disse:
- Quem você quer enganar? Você não é católica, não é crente, não é nada. Até parece que sabe o que o sinal da cruz significa...

Sabia que era um sinal. Ouviu uma sirene, depois o pneu desafinando. Primeira reação: agachar. - Olha, uma moeda de 1 real! Fitou a moeda e depois um garotinho. Devia ter uns 4 anos ou mais, mas com aparência de menos. Sujinho, ele olhou como se fosse pedir a moeda, mas ela jogou pra cima e disse:
- Se vc pegar é tua!

Ele correu, seguindo o voo da moeda. Ela correu atrás, achando que também tinha 4 anos novamente. Ele repetiu a brincadeira e, com um sorriso, disse:
- Se você pegar é sua de novo. Ela poderia pegar a moeda ainda em movimento, mas fingiu que não viu onde cairia e deixou ele pegar.
- Ah, você pegou de novo. É tua, vai!

Fim da diversão, ele saiu correndo. Por um momento, ela acreditou que existisse emoção ali na rua, naquela hora, naquele vazio. Acreditou que talvez ele faria companhia à ela, afinal, ela estava sozinha, ele também. O menino nem deveria saber o que era emoção tampouco companhia. Estava deveras acostumado à solidão.

Continuando com o louco plano da noite, ela deitou aos pés de igreja, como quem busca proteção. Pensou em sair dali, a idéia soava tão mal como o sinal da cruz, mas por ali ficou. Dormiu como se estivesse em uma cama dura, porém sua. Não olhou no relógio, pois não tinha um consigo. No primeiro raio do dia, acordou. Transeuntes derramavam passos perto dela e a idéia de dormir com esse barulho e com o que poderia respingar dele dava mais medo que o silêncio da noite que passara. No mesmo bar de ontem, quebrou o jejum com um pão com manteiga. Era melhor que o da sua casa. Negou o copo de cana:
- Não, obrigada! Acabei de acordar. Com cara de "e daí", o homem retirou o copinho do balcão.

Já havia provado a si mesma o que queria. Com um toque de saudade, olhou pra trás e seguiu em frente com mais uma volta pelo bairro. Acabou na porta do trem das 11, que a levaria de volta para casa. Sentiu como se faltasse uma parte de si. Havia deixado muito dela naquele chão, naquele Centro. Consigo, levava ainda mais do que havia deixado. A experiência de ser uma estatística, mesmo que por algumas horas, realizou-a.

Enfim, poderia dizer "Sim, eu sei". Na onda dessa súbita alegria, uma tristeza avassaladora. Lembrou do menino, o de 4 anos, e o imaginou dizendo algo diferente e distante do que ela diria. O viu, sorrindo, pronunciar: "Sim, eu sou."