27 de abr. de 2008

Ela aprendeu a ir em 2008

Ela foi. ‘Ir indo’ se tornou uma premissa em sua vida. Ela foi viver, ela foi sentir, ela foi deixando, ela foi fazendo as coisas como se tivesse indo faze-las. Ela não tinha mais pressa para ir a lugar algum.

Ela pensou: “Eu vou, porque não?”. A vida a leva pra onde ela tem que ir. Sem pressa.

Daí, ela viu que ‘ir indo’ é bem legal. Essa coisa de não ter ânsia nem pressa faz um bem danado pra cabeça. É, porque a cabeça tem uma mania infernal de correr demais, e todo mundo sabe que correr demais cansa.

Ela não queria mais se cansar, então resolveu deixar as coisas ‘irem’ do jeito delas e viu que isso realmente poderia funcionar a seu favor.

Aplicou essa coisa de ‘ir indo’ a praticamente tudo na sua vida, exceto ao trabalho. [No trabalho, as coisas são diferentes. Tem que fazer pensando, tem que ter pressa, de vez em quando.] Mas de resto, a coisa do ‘ir indo’ funcionava bem.

Nessa de ‘ir’, existe um medo que é de não saber voltar. Não há pedaços de pão suficientes para marcar o caminho de volta. Mas ela pensou que não existe um caminho certo, apenas. Existem sempre possibilidades. E sentiu a calma de apenas ir, enquanto todos estavam preocupados em ir depressa.

22 de abr. de 2008

Inferno de todo dia

Segundo o IBGE, há quase 192 milhões de habitantes no Brasil. Uns 11 milhões deles estão concentrados somente na cidade de SP, o que equivale a, aproximadamente, 5,7%. Um número muito considerável quando levamos em conta seus 5.564 municípios.
E não precisa ser nenhum matemático para observar tal estatística em nosso dia-a-dia.
Basta abrir os olhos para ver a cidade transbordar.

Os mais de 4 milhões de automóveis que transitam por nossas ruas todos os dias, têm sido grandes responsáveis por crescentes índices de congestionamento.
Sem falar em mais 4 milhões de pessoas que utilizam o metrô todos os dias. Atualmente, ele está SEMPRE cheio. Mas ainda assim, nada se compara aos horários de pico.
Somente no Tatuapé, entram no metrô uma média de 60 mil pessoas/dia. Na Sé, 77 mil.
Dizem que, na Linha 3 – Vermelha (Leste-Oeste), cabem 1.600 pessoas em cada trem. Isso seriam umas 267 pessoas por vagão. Com certeza quem indicou esses números, não andou de metrô nos tais horários de pico citados acima. Tenho impressão que pelo menos umas 400 pessoas se enfiam em cada um deles. É uma certa vocação à sardinha enlatada.

Agora chegamos ao ponto onde eu queria chegar.

Oi! Eu sou parte integrante daqueles 4 milhões que freqüentam o metrô. Mais precisamente, sou uma daquelas 60 mil que pegam o metrô no Tatuapé todas as manhãs. E este é só o primeiro dos 3, seguidos por um ônibus. São umas 2 horas perdidas todos os dias para ir e voltar do trabalho. Tempo esse, que se resumiria em menos de 1 hora e meia em horários normais. Ou mais humanos, pra quem entende do que estou falando.

Por que todos esses números?
Para mostrar a realidade do meu testemunho.

Sou uma trabalhadora dependente do tal transporte público. Aquele inferno!
Presencio cenas de horror diárias. Imensas demonstrações de falta de respeito ao próximo. Manifestações do instinto de sobrevivência. Sim. Aquilo pode ser comparado a uma selva. Embora eu ache a selva ainda mais civilizada.

É impressionante a mágica que esse povo faz. Sai um, entram 4!
Você não precisa entrar no metrô. Apenas deixar rolar. É um misto de se deixar levar pela osmose e se jogar lá pra dentro. Tem que saber a hora certa de aplicar cada técnica, e essa missão é algo que se aprende com o tempo.
Se bobear, os trogloditas passam por cima sem se preocupar se você está sendo esmagado contra outras pessoas, ou caindo e se enroscando no vão entre o trem e a plataforma (aquele próximo à linha amarela que deve servir de enfeite, já que não vejo ninguém respeitá-la).

Eu sempre espero um menos cheio. Sou claustrofóbica. Talvez essa não seja a melhor definição ao meu pânico àquela multidão. Não sei bem o nome do tal mal-estar. Mas posso dizer que é um processo psicológico progressivo, que começa com o pensamento de “e se eu passar mal?” e termina, na melhor das hipóteses, com a pressão lá no pé. Na pior, em desmaio. Coisa fresca, né?! Pois é...frescura não combina com metrô. Nem comigo. Mas é algo que venho desenvolvendo a cada dia. Involuntariamente.

O metrô tem todo tipo de figura. Desde os manos e “piriguetes” que a gente sabe q vão descer na Sé, até os engravatados que trabalham na Av. Paulista. Sem falar naqueles alternativos estilosos, cheios de alargadores e tatuagens que sem dúvidas vão desembarcar na Consolação e descer a R. Augusta. É uma riqueza em termos de cultura do nosso povo. E eu procuro apreciá-la como forma de distração. Mas é difícil se distrair quando você não tem espaço nem para tirar aquele fio de cabelo que está fazendo cócegas no seu nariz.

Só de pensar, já perco o fôlego e tenho tonturas. (Inspiiiira, expiiira.Ufff)

É aí que a gente dá valor às coisas simples.
Tem prazer maior do que a sensação de sair daquele forno (Afinal, o inferno é quente.) e sentir um ventinho frio no rosto?
Felizmente, consigo pegar o busão vazio e vou relaxando sentada até chegar ao trabalho.

Às 18 horas, é o fim do expediente. E novamente, horário de pico.
Vamos dar um tempinho?


Que tal uma breja?

9 de abr. de 2008

Bodas

Manja almas-gêmeas?
Não sei bem explicar se era o caso deles. Isso porque ainda não sei definir exatamente o que seja uma alma-gêmea.
De qualquer forma, acredito em algo superior que explique a história deles.

Sabemos que relacionamentos são tão frágeis e a convivência tão agitada e complexa, que são poucos os que sobrevivem às fraquezas da paixão. O amor eterno vem se tornando cada vez mais extinto.
Mas com eles era diferente. É por pessoas como eles que eu ainda acredito neste sentimento entre um homem e uma mulher.
Eles eram um exemplo diário de paciência, compreensão e parceria.
Construíram tudo juntos: um lar, uma família, uma história.
Se conheceram uma vez e mal conversaram.
Mas o destino insistiu e os apresentou novamente. E dessa vez sim, tudo começou.
Depois disso se casaram e 2 anos depois tiveram sua primeira filha. Ela parou de trabalhar e se dedicou à casa e sua nova família.
Tentaram o segundo bebê, mas este teimou em não vir. Não era pra ser. Ficaram com sua única filha.
Enfrentaram mudanças. Ele trabalhou muito. Cresceu. Recebeu oportunidades. E mesmo quando as coisas começaram a regredir, eles encararam os problemas juntos.
Conseguiram dar tudo que desejavam para sua filha, que tinha sua vidinha de princesa. E aos 13 anos, deixou de ser única.
Pois é, a vida deu uma demonstração nítida de que nunca é tarde para recomeçar. E com todas as dificuldades, a surpresa foi um presente. Um menino. Este também cresceu saudável e com tudo que precisa para ter uma infância feliz. Todos ficaram bem.

Ele, cada ano que passava, se tornava mais cabeça dura. Era uma pessoa difícil, às vezes até se assumia ignorante. Fazia o que acreditava ser o melhor e não ouvia ninguém. Se desequilibrava diante de situação difíceis e era estúpido quando perdia o controle.
Ela, também não era a maior das delicadezas. Sua paciência andava cada vez mais curta. Ela desistia de discutir em certas situações. Só dizia: faz o que você quiser. E tinha mania de depois jogar na cara tudo que foi decidido errado.

Mas ele era sensível. Apaixonado por sua família. Fazia qualquer coisa por ela e passaria o maior tempo possível grudado nela. Até quando fazia burrada, fazia na melhor das intensões, pensando no que seria melhor pra todos.
Assim como ela era preocupada, interessada, compreensiva e companheira. Não desistia de tentar mostrar o que era melhor. Sempre apoiou todos os membros de sua casa, idependente da decisão.Era forte. A mais forte ali.

Eles eram loucos um pelo outro. Eram uma vida só. E por isso passavam por tudo isso sempre juntos.

Aquela força superior que os unia, era o amor.
E eles não eram. São! Há 25 anos.

1 de abr. de 2008

Um texto para chamar de meu

Escrever me faz bem. Reparei isso há alguns anos. Talvez uns 8.

Um suco de laranja com uma pedra de gelo me cai bem. Isso eu só reparei anteontem.

Cabelos mais curtos vestem melhor minha personalidade. Tenho ouvido dizer por aí.

O preto disfarça o que a preguiça me causou. Mas ainda me sinto bem com meu vestido branco com detalhes em roxo, apelidado carinhosamente de 'marinheiro'. Talvez porque ele seja larguinho...

Um sorriso me disfarça melhor, mas não consigo evitar expremer os olhos, franzir a testa e morder a boca enquanto trabalho.

Odeio expôr minhas fragilidades, mas não posso evitar de deixá-las escapar entre gestos e palavras, pois isso me torna mais humana, menos reativa.

Viver os dias me satisfaz. Uma boa dose de amigos, outra dose de cama e comida me trazem paz e acertam o descompasse da balança entre a maturidade e a adolescência que insiste em se distanciar.

As lembranças vivem em meio a uma Jihad eterna dentro de mim. E eu me pego todo o tempo tendo que escolher entre ir ou ficar.
Por sorte, ao final, fico sem escolhas. No final,a luz tá sempre lá na frente e ao olhar pra trás, vejo pouco, quase nada. E é ai que o clichê, meio torto, se confirma: o que os olhos não vêem, o coração (quase) não sente.