22 de abr. de 2008

Inferno de todo dia

Segundo o IBGE, há quase 192 milhões de habitantes no Brasil. Uns 11 milhões deles estão concentrados somente na cidade de SP, o que equivale a, aproximadamente, 5,7%. Um número muito considerável quando levamos em conta seus 5.564 municípios.
E não precisa ser nenhum matemático para observar tal estatística em nosso dia-a-dia.
Basta abrir os olhos para ver a cidade transbordar.

Os mais de 4 milhões de automóveis que transitam por nossas ruas todos os dias, têm sido grandes responsáveis por crescentes índices de congestionamento.
Sem falar em mais 4 milhões de pessoas que utilizam o metrô todos os dias. Atualmente, ele está SEMPRE cheio. Mas ainda assim, nada se compara aos horários de pico.
Somente no Tatuapé, entram no metrô uma média de 60 mil pessoas/dia. Na Sé, 77 mil.
Dizem que, na Linha 3 – Vermelha (Leste-Oeste), cabem 1.600 pessoas em cada trem. Isso seriam umas 267 pessoas por vagão. Com certeza quem indicou esses números, não andou de metrô nos tais horários de pico citados acima. Tenho impressão que pelo menos umas 400 pessoas se enfiam em cada um deles. É uma certa vocação à sardinha enlatada.

Agora chegamos ao ponto onde eu queria chegar.

Oi! Eu sou parte integrante daqueles 4 milhões que freqüentam o metrô. Mais precisamente, sou uma daquelas 60 mil que pegam o metrô no Tatuapé todas as manhãs. E este é só o primeiro dos 3, seguidos por um ônibus. São umas 2 horas perdidas todos os dias para ir e voltar do trabalho. Tempo esse, que se resumiria em menos de 1 hora e meia em horários normais. Ou mais humanos, pra quem entende do que estou falando.

Por que todos esses números?
Para mostrar a realidade do meu testemunho.

Sou uma trabalhadora dependente do tal transporte público. Aquele inferno!
Presencio cenas de horror diárias. Imensas demonstrações de falta de respeito ao próximo. Manifestações do instinto de sobrevivência. Sim. Aquilo pode ser comparado a uma selva. Embora eu ache a selva ainda mais civilizada.

É impressionante a mágica que esse povo faz. Sai um, entram 4!
Você não precisa entrar no metrô. Apenas deixar rolar. É um misto de se deixar levar pela osmose e se jogar lá pra dentro. Tem que saber a hora certa de aplicar cada técnica, e essa missão é algo que se aprende com o tempo.
Se bobear, os trogloditas passam por cima sem se preocupar se você está sendo esmagado contra outras pessoas, ou caindo e se enroscando no vão entre o trem e a plataforma (aquele próximo à linha amarela que deve servir de enfeite, já que não vejo ninguém respeitá-la).

Eu sempre espero um menos cheio. Sou claustrofóbica. Talvez essa não seja a melhor definição ao meu pânico àquela multidão. Não sei bem o nome do tal mal-estar. Mas posso dizer que é um processo psicológico progressivo, que começa com o pensamento de “e se eu passar mal?” e termina, na melhor das hipóteses, com a pressão lá no pé. Na pior, em desmaio. Coisa fresca, né?! Pois é...frescura não combina com metrô. Nem comigo. Mas é algo que venho desenvolvendo a cada dia. Involuntariamente.

O metrô tem todo tipo de figura. Desde os manos e “piriguetes” que a gente sabe q vão descer na Sé, até os engravatados que trabalham na Av. Paulista. Sem falar naqueles alternativos estilosos, cheios de alargadores e tatuagens que sem dúvidas vão desembarcar na Consolação e descer a R. Augusta. É uma riqueza em termos de cultura do nosso povo. E eu procuro apreciá-la como forma de distração. Mas é difícil se distrair quando você não tem espaço nem para tirar aquele fio de cabelo que está fazendo cócegas no seu nariz.

Só de pensar, já perco o fôlego e tenho tonturas. (Inspiiiira, expiiira.Ufff)

É aí que a gente dá valor às coisas simples.
Tem prazer maior do que a sensação de sair daquele forno (Afinal, o inferno é quente.) e sentir um ventinho frio no rosto?
Felizmente, consigo pegar o busão vazio e vou relaxando sentada até chegar ao trabalho.

Às 18 horas, é o fim do expediente. E novamente, horário de pico.
Vamos dar um tempinho?


Que tal uma breja?

4 comentários:

Unknown disse...

...e amanhã o Metrô comemora 40 anos de operação!
Parabéns! vc deveria levar um bolo pra compartilhar com seue colegas de superlotação!

anyway, uma boa crônica escrita por vc!!! ;-)

Vanessa Nassif disse...

Pois é...e 15% dos usuários estão descontentes. (Dado cedido por um amigo. Não confirmei)

Aquilo já num era a oitava maravilha do mundo. Algum maldito ainda foi inventar Bilhete Único..hunf

Levarei um bolo de jiló.

Vanessa Nassif disse...

ps.: acredito q só foram 15% pq o resto devia estar sendo ameaçado de morte. 85% de pessoas contentes com os serviços do metrô? Deve ser o povo que andava de busão antes da integração.

Diego Costa disse...

É a chamada crônica reflexiva, baseada em dados, números...

Toda vez q eu pego metrô lotado, sinto sede de cerveja...Metrô cheio é foda, é cada coisa...mas o pior é o mal cheiro...só por deus...

Bom texto, Felfele...

Beijo!