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19 de out. de 2010

Inércia

Um corpo não submetido à ação de forças ou submetido a um conjunto de forças resultante nula.

Toda vez que a inércia é interrompida ela abre sua caixa de pandora às avessas e despeja no momento os sentimentos mais diversos, provoca as emoções mais inesperadas e causa reações nunca antes vistas ou sequer lembradas.

É no despertar da vida que a inércia morre. Morre e ganha sentido por não ser.

21 de set. de 2010

A pergunta

Quer namorar comigo?

O quê?

Quer namorar comigo? eu disse.

Nossa! Acho meio cedo pra gente pensar nisso, lindinho. A gente se diverte tanto juntos, mas a verdade é que a gente não se conhece o bastante para namorar...

O quanto é o bastante?

Não sei, não é tangível. Não se determina um momento para isso acontecer, isso simplesmente acontece, como mágica, e a gente sente.

Se o bastante não é tangível, como você pode saber que ele não é o bastante?

Quê?

Então você não quer namorar comigo?

Olha, eu quero ficar com você. O que a gente tem é muito legal e acho precipitado a gente falar em namorar. Tenho medo que o título namoro pese demais e estrague o que a gente tem.

Se você quer ficar comigo e tem medo que tudo acabe, por que a gente não namora logo de uma vez? É mais garantido, é mais certo. Não?

Não necessariamente. Veja bem, não é porque eu não quero namorar com você agora, nesse exato momento, que signifique que eu nunca vou querer. Eu só acho que agora não é o momento. Por que a gente não vai levando um dia de cada vez, até que ambos sintam a mesma coisa?

Você disse que não quer namorar comigo agora. Então é não a resposta?

Não sei, acho que sim.

Sim? Você quer?

Não, acho que não quero.

Tudo bem. Eu não queria tanto assim também. Você tá com fome?

30 de ago. de 2010

Louco é o vento

Louco é o vento que se joga no ar, bagunça as folhas caídas ao chão sem pedir licença ou perdão.

Louco é o vento que segura o perfume ao passar, que se segura pra deixar a brisa dançar, que some ao ver o calor do verão chegar.

Louco é o vento que invade cabeça e coração, que bagunça o cabelo dessa e daquela menina não, que passa varrendo lembranças, memória e solidão .

Louco é o vento que se isola no deserto, que não deixa a calmaria chegar nem perto, que leva pra longe a nuvem de tempestade – esperto.

Louco é o vento.

12 de ago. de 2010

Feitos da madrugada

Cai a noite, a temperatura, a chuva, o bêbado e o ponteiro. De madrugada a gente já não sabe a cor dos gatos; se procuramos o sono ou se é ele que encontra a gente.

Nessas horas, a ideia de organizar ideias parece boa, até que você passa a ter ideia de que sua melhor ideia é parar de organizar ideias. De madrugada a gente pira um pouco – pouco, a ponto de não pirar por inteiro.

Roteiro de viagem, de filme, de férias, de compras, de visitas. Tudo que a gente faz na madrugada é enfileirar vontades, provavelmente contra sua vontade.

Sobe o sol, o termômetro, o carteiro e a porta da padaria. Ao amanhecer o que era noite vira dia. Raios de sol cegam quem sobe a avenida e as ideias, sonhos e vontades hibernam até que o preto cubra o céu escarlate e traga de novo a madrugada fria.

26 de jul. de 2010

Portas fechadas, feridas abertas

Do alto da imaginação vejo um homem que parece ser baixo
Tenho dúvidas se é feio ou bonito, pois lá de cima não se tem certeza de nada
Queria que fosse um sonho doce, mas não passa de uma
amarga realidade
Julgamos rapidamente a todos, e lentamente nos tornamos apáticos
Na medida em que faço progressos, regresso no tempo pra encontrar verdades
Ainda que a alegria traga leveza, sinto o peso da responsabilidade
Queria a vida com mais amor, mas o mundo todo espalha o ódio
Com a certeza de que nada é certo, fico na dúvida se tudo é mesmo errado

24 de jul. de 2010

REpartir

Eu vivo a me repartir
Parte de mim está aqui
Parte de mim está ali

Reparto meu coração
De metade em metade
Distribuo as partes
Por toda a parte
Parte vai pro céu
Parte vai pro chão

Repartir
As ideias e o pão
O dinheiro não
O acontecimento
A saudade
O caminho
A solidão

15 de jul. de 2010

A vida secreta dos pensamentos

Ninguém jamais viu de perto a vida secreta dos pensamentos. Malacos, se escondem em labirintos, se disfarçam em roupagens novas, camaleônicas, ficam invisíveis, se transformam a ponto de ficarem irreconhecíveis.

Na vida secreta dos pensamentos geralmente existe um que comanda, outros que obedecem, outros que coexistem, outros que nem sequer existem.

Dentro da vida secreta dos pensamentos você jamais poderá entrar. Você é expectador dos pensamentos. Assiste enquanto dão seu show, vão na valsa, deslizam no salão da sua mente e você olha, espera acontecer o show para, ao final, aplaudi-los, vaiá-los ou emudecer-se diante de tamanha imensidão.

A vida secreta dos pensamentos é cheia de altos e baixos. Se você não se cuidar, te tomam de assalto. Te colocam nua diante de uma multidão. Deixam homens e mulheres iguais, todos com roupa de baixo numa sala de reunião. Te mandam de manhã pra Alemanha e de noite pro Afeganistão. Te deixam órfão. Te fazem mãe. Te tiram um irmão. Te trazem lágrimas e risos, juntos ou separados, de molhar o rosto ou aquecer o coração.

Quando se fala na vida secreta dos pensamentos não dá pra dizer quem invadiu quem primeiro: se são eles que vivem pra você, ou você que os vive por inteiro.

1 de jul. de 2010

REescrita

Eu sou uma grande rasura. Escrita, rabiscada, amassada. Na minha história não há nada de perfeito, até agora. Não há nada que não merecesse ser reescrito, escrito com novas palavras, escrito de maneira diferente, escrito dizendo mais ou menos.

Estou escrita e em cima de mim há um traço que me rabisca. Estou entre parênteses. Em seguida, estou escrita de outra forma, melhor que a anterior. Eu sou uma evolução de mim mesma, palavra após palavra.

Eu poderia ter um título melhor, outro desenrolar, outro final. Mas sou assim, um rascunho de mim.
Uma grande rasura, sem pretensão de ser sempre lida, sempre entendida, sempre sentida.

22 de jun. de 2010

O resto do que restou

O que mais me resta desse resto que restou?
Me resta uma aresta não aparada que você deixou
Me resta um pouco de amor, o restante do que restou
Me resta o resto de carinho, porque a maioria se dissipou
O resto de esperança que ainda não terminou
Me resta uma frase na cabeça, que a água do rosto não lavou
Me resta um pouco de vazio que o tempo não ocupou
O resto da frase que não se completou
O resto do silêncio que a vida cuidou

11 de mai. de 2010

Vida descartável

Sua vida expira quando?
Viver com hora marcada,
Tudo com momento certo para ser esquecido

Felicidade: consumir em até 3 dias, depois de aberta
Viva logo, senão estraga
E lembre de manter-se sempre em lugar arejado

Sua memória é reciclável?
Você a consome, joga no lixo
e ela renasce com outro nome, repaginada?

Uma vida descartável,
Pra se viver num gole só

Uma vida descartável
Das relações, dos aprendizados
Dos relacionamentos, dos momentos passados

4 de mai. de 2010

O que são as coisas

Músicas são como filmes, que são como poesias, que são como leituras, que são como as lembranças de você: cada vez que repasso por elas reparo em algo que passou desapercebido, que fugiu dos meus olhos. E ao final, tem sempre um sorriso.

Notícias são como diálogos, que são como brigas, que são como aulas, que são como as conversas com você: cada vez que empresto energia à elas aprendo algo novo, expando meus horizontes e dou novos sentidos à percepções já estabelecidas.

Viagens são como a infância, que é como férias, que são como terminar as fases do videogame, que é como estar com você: a cada momento passado da vontade de voltar pro começo, só pra repetir tudo outra vez. Dá saudade e faz a gente querer mais, só mais um pouquinho, prometo. Depois do fim, a gente se sente interrompido, forçado a manter só lembranças, contra nossa vontade. Mas sempre, ao final, tem um sorriso.

19 de abr. de 2010

E era a vida

Interior
O mato, a mata
Cachoeira
Pula você
Agora eu
E de novo
Roupa molhada
Molhando a mata
Garupa de moto
Padaria fechada
E era a vida
Pacata, parada
E na capital
Fumaça
Ônibus que vem,
Carro que vai
E a aula
Cerveja barata
E fumaça
Dia que vira noite
Água de chuveiro
Ou da rua entupindo bueiro
Veio o avião
Viagem grande
Sem data marcada
O idioma
O medo
O nada
O cinza
O gelo
Cerveja gelada
E era a vida
Caminho
Caminhada
O corpo na grama
Sem roupa
Sem nada
E a água
De lago
Não cachoeira
E a água
De lago
Não do chuveiro
E a água
Sem graça
Não de bueiro
Saudade de casa
E era a vida
Cinco anos
Saudade da água
Seis anos
E era a vida
Pula você
Depois vou eu
Saudade de nada
E era a vida
E o avião
E o coração
E a chegada
E a saudade
E a obrigação
E a cachoeira
E era a vida
Pacata, parada

15 de abr. de 2010

O Sol

De manhã tem o sol

No morro

No barco

O anzol

Há areia para o mar

E a criança a nadar

O milho

O velho

O zinco

O cachorro

Que corre

O sol da manhã

Doura o pêlo

Queima a pele

O asfalto

Esquenta

A manhã

Pedra solta

A calçada

O pai e a filha

Mãos dadas

O homem e a mulher

Dedos entrelaçados

Nuca suada

O sol

Atrás do morro

Morre

Amanhã tem sol

De manhã

No barco

No bar

O sol

7 de abr. de 2010

Sentidos

Eu enxergo no escuro
Porque a luz está nos meus olhos.
Quando eu não vejo,
Não vejo porque não quero,
Pois enxergar está no meu sangue.

Se minha vista embaça,
Não demoro em fechar os olhos,
Reabri-los, lubrificá-los
E passo a ver de novo.

Se minha luz falha,
Eu sigo no tato,
Porque minhas mãos podem ver;
Quem manda no meu sentido é minha alma.

Eu sinto pelo calor, pela fibra
Eu posso sentir pela cor do sentido,
Pela pele, com ou seu pêlo
Pelo rosto, pelo toque na cara.

Se me perco do tato
Sigo no cheiro
Todos os aromas são conhecidos
Fumaças, velas, ventos
Cheiro de lembranças é sempre um cheiro

Se o faro falha
Ganho no som
Percebo o batuque
O barulho me envolve

Ecoa no peito, se espalha na boca
Se ordena na fala
Sente o som, o tom, o dom
Ouve, repara

Se o mundo ensurdece
Eu sinto sabores
O gosto de lembrar o som
O cheiro que me tem o ontem
O calor que me vem de dentro
A visão que me adoça e me acalma

Eu tenho meus sentidos
Eu sinto meus sentidos
Eu sigo meus sentidos

29 de mar. de 2010

era a hora

8h35. era hora, se cuida. entrou no carro, nem botou o cinto; logo arrancou pra não mais voltar. não queria ir. sem opção, foi.

8h42. sorriu sozinha. virou à esquerda e você estava lá, presente em seu pensamento. nem o rádio ligou: quis ouvir a sua voz que ocoava numa cabeça sozinha, ocupada só por você. era o seu momento. vê se dá notícias.

9h00. chegou e lembrou-se da fome. parou o carro, parou pra comer, não parou de pensar em você. checou o celular algumas vezes, te mandou uma mensagem daquelas retóricas, de pouco texto. por quê, hein?

10h00.
10h34.
11h22.
11h37.

11h38. as horas se arrastavam, preguiçosas, espreguiçadas no tempo. procurou seu cheiro, mas o banho já havia levado. lembrou do seu toque, lembrou de todos os detalhes. tinha que ser.

12h55. dormiu bem? melhor se ainda dormisse naqueles braços. o sono atacou, quis ir pra casa deitar e tentar relaxar, mas ainda teria de acordar e de tudo relembrar. o que há de se esperar daqui pra frente? tudo ou nada, supôs.

15h33. alô? o mundo parou. molhou a mão na maçaneta - igual às suas, sempre molhadas - olhou para as árvores que dançavam, baixou a cabeça e se punha a sorrir de novo, sozinha. ouviu de você palavras doces que confortavam e castigavam ao mesmo tempo; fadas sádicas, te dopam com veneno e te dão um beijo.

15h44. uma dor no peito. silenciosa, sem cor. idiopática, assintomática, sorrateira, mas ainda dor. vai, mas volta, vai?

23h48. é uma lágrima, sim, senhor. amanhã é terça-feira; é sim, senhor. e não é dia de festa, não, senhor. a saudade? a saudade é a medida da distância, senhor.

27 de mar. de 2010

libertas et pax

a liberdade é difícil de caber em palavras. é tão grande, tão solta, tão moleca e levada que não tem que a faça estar amarrada em frases feitas, organizadas em fileiras de palavras, presas à uma descrição inventada.

a liberdade parece com a sensação de tranqüilidade ao se trancar num cômodo, de trancar a porta e só você ter a chave, de trancar o silêncio e só você poder quebrá-lo, de trancar o pensamento invasor numa prisão solitária da mente que só você poderia abrir.

a liberdade, travessa e saltitante, solta risos de alívio por onde passa. e ela não passa, desfila. só anda sobre o tapete vermelho felpudo da tranqüilidade. grande, solta, moleca e levada.
a liberdade é levada por um sorriso no rosto e uma calma no coração.

22 de mar. de 2010

O acaso não existe

Nada é por acaso. Não existem acidentes. Ainda que tenha havido uma Eva e ela tenha mordido a tal da maçã não foi um acidente, não foi por acaso.

Nós viemos ao mundo através da barriga de nossas mães e isso não foi por acidente. Mesmo que a camisinha tenha furado, que o anticoncepcional tenha falhado, que o coito não tenha sido interrompido no momento certo, não foi por acidente nem por acaso que chegamos nesse mundo.

Encarnamos em um bebê fofo e sem dente, não por acidente. Crescemos e, então, nos tornamos crianças. Crianças puras, sinceras, livres e perfeitas, apesar de qualquer imperfeição física. Em pouquíssimo tempo, logo no princípio de nossa vida consciente, já aprendemos a perder tudo que tínhamos ao nascer. Toda liberdade, toda a criatividade, toda sinceridade, toda sabedoria, toda a irreverência. Tudo é perdido. Tudo é resetado e passamos, então, a ser nada.

É nesse momento que somos “enformados”, forçados a nos moldar num tipo de vida que fora pré-estabelecido bem antes de chegarmos nesse mundo. Então, entubados numa forma única de viver e, ainda que durante nossa infância tenhamos sido ensinados e educados em culturas e filosofias diferentes, aprendemos todos a sermos iguais, a fazer tudo igual.

Toda essa forma de viver a vida como temos vividos há centenas de anos é estrategicamente planejada por pessoas que foram bebês sem dentes bem antes de nós. Temos perpetuado padrões, estéticas e regras. E tudo foi milimetricamente planejado para parecer natural, trivial, corriqueiro, normal.

Passamos a ser como todos e, não por acaso nem por acidente, alguns fogem à regra, se rebelam, se reconectam com uma memória remanescente e, prontamente, sofrem tentativas de recolocação social. Reabilitam-se na loucura. Incompreendidos, são colocados num coma profundo.

E há muitos anos, mais do que podemos imaginar, não temos visto nenhuma evolução. Pelo menos nenhuma real. Mas vão dizer que a tecnologia nunca esteve tão avançada. E que na Medicina prosperamos. Economia, moda, artes, propaganda. Estamos é perdidos. Nunca houve tanta doença, tanto problema, tanta crise. Toda essa “evolução” é camuflagem. E ainda há guerra e desespero como sempre houve. E acreditamos no capitalismo mais do que em nós mesmos. Acreditamos no que nos fazem crer mais do que no que realmente acreditamos. Acreditamos nos jornais, na mídia.

Acreditamos na religião, mas não nos profetas. Não acreditamos mais no propósito da vida. Não acreditamos mais em nada. Não acreditamos mais na nossa memória. Não por acaso, nem por acidente, não acreditamos em nós.

Mordeu a maçã,
Não por acaso
Gerou o filho,
Nasceu sem atraso.

Crescido, perfeito;
Emburrece à direito
Criativo, honesto;
Vira homem e de tudo esquece.

Se relembramos,
Somos loucos,
Tarados

Se reconectamos,
Somos doentes,
Sádicos

E há anos de mentiras
Vivemos sendo enganados,
Enganando
Há séculos de orgias
Vivemos nos prostituindo,
Prostituídos

Há anos acreditamos
Na religião,
Mas não nos profetas
Há anos acreditamos
Na salvação,
Mas não nos salvadores
Há anos acreditamos
No homem,
Mas nunca em nós mesmos.

15 de mar. de 2010

Doces fantasias

Prefiro pensar que, apesar da distância oceânica, bastará fechar os olhos para ter-lhe em filme, como se detrás das pálpebras tivesse a tela onde as minhas lembranças iriam se projetar.

Prefiro pensar que todos os dias seus são meus, vívidos pelas horas que antes estávamos, mesmo que agora só hajam horas em que fomos.

Prefiro pensar que nada importa além do presente, mesmo que eu saiba, nem tanto no fundo, que é raso o espaço do agora enquanto nosso momento transborda.

Prefiro pensar que a saudade entre os dias acaba com a nova chegada, mesmo que saiba que a saudade do sempre em diante não acabará – nem com semanas, nem com meses que hão de chegar; desconvidados por mim, ignorados por você.

Prefiro pensar que sei o que estou sentindo, pensando, dizendo; ainda que sem sentido as palavras formem sentidos novos; ainda que sem discurso eu esteja num palanque; ainda que descrente eu acredite no que não posso ver.

Ainda que nada eu saiba, prefiro continuar a não saber pelo sabor das doces possíveis fantasias.

3 de mar. de 2010

änd

Eu vivo indo e voltando na estrada do meu pensamento. Viajo como um viajante.

E trilho uma longa trilha que, ao fim, me mostra o horizonte – o vi logo adiante.

Eu penso em parar: tenho sede, as pernas clamam, coração quer descansar e a cabeça me diz “vá, ande”.

Eu penso e repenso. Me questiono, sugestiono, peço ajuda e penso em atrasar o relógio do silêncio, que me responde “vai, adiante!”.

Entre idas, caminhos e pensamentos, sigo sempre em frente, sabendo a hora de voltar atrás. Vou adiante.

28 de fev. de 2010

O corpo

A começar pelo cabelo. De toque macio, a bagunçar a cada toque; era difícil não querer embaralhá-lo.

Depois, os olhos pequenos com jeito de sono. Mais abaixo, uma covinha única, impossível de não sorrir à ela. O sorriso era largo na medida certa. Se gargalhado, aumentava um pouco, mas ainda parecia certo; feito sob medida para aquele rosto.

Depois era de se reparar o peito limpo, largo, alvo. Ombros largos. Braços firmes. Pernas altas. Pés gelados. Corpo suado.

Longe da perfeição, dá-se conta do encanto quando os pequenos defeitos viram charme e desconsertam um olhar compenetrado.

A visão do que poderia ser, agora é. E entre o cansa e descansa, dá pra contar num canto da cama todos os segredos que não se vê, não se ouve, nem se lê, mas que se entregam; rendidos no suor, contaminados no prazer, condenados num momento.