22 de mar. de 2010

O acaso não existe

Nada é por acaso. Não existem acidentes. Ainda que tenha havido uma Eva e ela tenha mordido a tal da maçã não foi um acidente, não foi por acaso.

Nós viemos ao mundo através da barriga de nossas mães e isso não foi por acidente. Mesmo que a camisinha tenha furado, que o anticoncepcional tenha falhado, que o coito não tenha sido interrompido no momento certo, não foi por acidente nem por acaso que chegamos nesse mundo.

Encarnamos em um bebê fofo e sem dente, não por acidente. Crescemos e, então, nos tornamos crianças. Crianças puras, sinceras, livres e perfeitas, apesar de qualquer imperfeição física. Em pouquíssimo tempo, logo no princípio de nossa vida consciente, já aprendemos a perder tudo que tínhamos ao nascer. Toda liberdade, toda a criatividade, toda sinceridade, toda sabedoria, toda a irreverência. Tudo é perdido. Tudo é resetado e passamos, então, a ser nada.

É nesse momento que somos “enformados”, forçados a nos moldar num tipo de vida que fora pré-estabelecido bem antes de chegarmos nesse mundo. Então, entubados numa forma única de viver e, ainda que durante nossa infância tenhamos sido ensinados e educados em culturas e filosofias diferentes, aprendemos todos a sermos iguais, a fazer tudo igual.

Toda essa forma de viver a vida como temos vividos há centenas de anos é estrategicamente planejada por pessoas que foram bebês sem dentes bem antes de nós. Temos perpetuado padrões, estéticas e regras. E tudo foi milimetricamente planejado para parecer natural, trivial, corriqueiro, normal.

Passamos a ser como todos e, não por acaso nem por acidente, alguns fogem à regra, se rebelam, se reconectam com uma memória remanescente e, prontamente, sofrem tentativas de recolocação social. Reabilitam-se na loucura. Incompreendidos, são colocados num coma profundo.

E há muitos anos, mais do que podemos imaginar, não temos visto nenhuma evolução. Pelo menos nenhuma real. Mas vão dizer que a tecnologia nunca esteve tão avançada. E que na Medicina prosperamos. Economia, moda, artes, propaganda. Estamos é perdidos. Nunca houve tanta doença, tanto problema, tanta crise. Toda essa “evolução” é camuflagem. E ainda há guerra e desespero como sempre houve. E acreditamos no capitalismo mais do que em nós mesmos. Acreditamos no que nos fazem crer mais do que no que realmente acreditamos. Acreditamos nos jornais, na mídia.

Acreditamos na religião, mas não nos profetas. Não acreditamos mais no propósito da vida. Não acreditamos mais em nada. Não acreditamos mais na nossa memória. Não por acaso, nem por acidente, não acreditamos em nós.

Mordeu a maçã,
Não por acaso
Gerou o filho,
Nasceu sem atraso.

Crescido, perfeito;
Emburrece à direito
Criativo, honesto;
Vira homem e de tudo esquece.

Se relembramos,
Somos loucos,
Tarados

Se reconectamos,
Somos doentes,
Sádicos

E há anos de mentiras
Vivemos sendo enganados,
Enganando
Há séculos de orgias
Vivemos nos prostituindo,
Prostituídos

Há anos acreditamos
Na religião,
Mas não nos profetas
Há anos acreditamos
Na salvação,
Mas não nos salvadores
Há anos acreditamos
No homem,
Mas nunca em nós mesmos.

5 comentários:

Daniel Xavier disse...

A ignorância é força. Palavras do Grande Irmão - que não é o Big Brother - no livro 1984.

Esse mesmo questionamento me angustiava a um tempo atrás. Acho que ele faz parte de todo ser humano.

Enfim, fica a dica de um livro ou um filme: O Processo, do Franz kafka.

Ele não vai te responder nada, eu acho. Só vai te deixar mais consciente da realidade, da história. Consequentemente, mais louca.

(Preciso parar de beber pela manhã) rs

bjos

Anônimo disse...

"mas nunca em nós mesmos". não por acaso, essa foi a parte que mais me pegou, rê!

belíssima crítica e semântica.

bjo bjo.

Lika disse...

"Toda essa “evolução” é camuflagem"

Perfeito! Como sempre!
Me perdi no meio de tanta verdade!

Beijo.

Vanessa Nassif disse...

"Em pouquíssimo tempo, logo no princípio de nossa vida consciente, já aprendemos a perder tudo que tínhamos ao nascer. Toda liberdade, toda a criatividade, toda sinceridade, toda sabedoria, toda a irreverência. Tudo é perdido. Tudo é resetado e passamos, então, a ser nada."

Todo resto é conseqência.

Belos questionamentos. Bela crítica. Bela filosofia. Bela crítica. Bela reflexão...ou como mais quiserem chamar.

;0)

André Finhana disse...

Só volto aqui quando tiver coisa fútil e sem sentido.
Odeio pensar e refletir.
Vc me cansa.
Sou Fã.