3 de nov. de 2009

Quanto vale mais que mil palavras?

Eu adoraria dizer que o ponteiro marcava nove horas e vinte e dois minutos, mas não tenho usado relógio tem quase dois anos. É por isso que direi que a função relógio do meu rádio marcava 9:22 AM. O relógio do rádio do meu carro marcava 9:22 AM. Eu já começava a pensar que iria chegar após as 9:30, sendo que esse é o horário máximo tolerado lá na agência. E eu quase nunca cheguei a essa hora, então não posso dizer efetivamente que me preocupava, apenas pensava no inevitável atraso.

Lá estava eu, no meio da manada, inalando muito CO2 e tentando completar os poucos quilômetros que me faltavam. Queria lembrar o que tocava no rádio naquele instante, mas não consigo. Me atentarei somente ao que me lembro (provavelmente é o que importa).

O calor era quase enlouquecedor. Eu gostaria de dizer que estava na praia, deixando o sol queimar minha pele, permitindo o suor escorrer pela minha testa, autorizando a água de coco gelada a matar minha sede. Mas estava apenas no meu carro, quase chegando à ponte Cidade Universitária. O sol, querendo ou não, queimava meu braço esquerdo e me fazia pensar que o "braço de caminhoneiro" estava voltando pro meu corpo, passados 8 meses e algumas idas ao Rio de Janeiro na tentativa de igualar o tom do direito e o esquerdo. O suor, involuntariamente, corria pela minha testa e eu mentalizava apenas um objeto durante seu trajeto: o santo e divino aparelho de ar condicionado. A água de coco na minha mão era daquelas de caixinha mesmo. Quem não tem cão, caça com gato, amigo.

E foi entre um gole e outro e entre a primeira e a segunda marcha que algo completamente inesperado, inusitado e louco aconteceu. Desobvialize e tente imaginar. Te dou alguns segundos para isso.

(1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13,14,15,16,17,18,19,20). Alguma idéia? Seja lá qual for, não foi isso que aconteceu.

Eu não esperava nada daquele trânsito. Não esperava que ele melhorasse (eu não me engano!), nem que piorasse (eu tenho esperança, tenho fé). Não esperava nenhum "homem da minha vida" (parei com isso!), nem ninguém pra me assaltar ou bater na minha traseira (tenho certeza que tem gente que vive pensando nisso no trânsito). Eu só queria mesmo era estar na praia. Mas Deus havia reservado outra coisa para o meu dia.

Estava ouvindo alguma música, tomando a água de coco e olhando através do vidro direito, do passageiro. Ele estava fechado e eu, na verdade, olhava para o carro ao lado para ver se ele tinha me dado passagem, pois queria trocar de faixa. Minha visão periférica somada ao meu impulso, totalmente involuntário, levou minha cabeça abruptamente a mirar para o lado esquerdo. Meu vidro estava totalmente aberto. Olhei rapidamente para o lado e dentro de um carro popular estavam um senhor, que dirigia, e uma senhora, entre os 50 e 60 anos de idade. O vidro dela estava fechado e não tinha insulfilm. Eu a encarei e só consegui pensar em uma coisa: eles têm ar condicionado. Já aquela senhora me encarou por talvez 1 segundo e meio e sabe o que fez? Sorriu pra mim. Abriu um enorme e estonteante SORRISO e isso me deixou totalmente sem reação. O trânsito esboçou um caminhar e o carro dela andou o suficiente para desemparelhar do meu.

Aquilo me tirou do eixo. Sério, foi muito doido. Eu dirijo há apenas 6 anos, mas isso já é tempo o bastante para dizer que em todos esses anos algo assim nunca tinha acontecido comigo. Você consegue se imaginar sorrindo para alguém nessas circunstâncias? Eu não sei com qual intenção ela sorriu para mim, nem sei se esperava um sorriso de volta. Mas o sorriso dela, se pudesse falar, me diria: "Bom dia! Tudo bem? Poxa, te olhei e fui com a sua cara, sabia? Você parece ser uma menina legal. Que bom que está tomando uma água de coco, mesmo que industrializada. Ao menos não é uma lata de Coca-cola em plenas 9 horas da manhã. Refrigerante, principalmente de manhã, faz mal, sabia? Bom, menina, tudo de bom pra você. Bom trabalho, boa vida. Um beijo, tchau".

Valeu pela originalidade, pela simplicidade, pela espontaneidade. Valeu por um dia inteiro de qualquer coisa que fosse.

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Esse pequeno gesto numa manhã quente e congestionada valeu mais que mil imagens.

3 comentários:

lika! disse...

Ah meu, que fofa! Nunca achamos que no meio desse mundo maluco alguém vai sorrir pra gente tão espontanamente! Fofa fofa!

Vanessa Nassif disse...

hahahaha...DE-MAIS! E é tudo q eu consigo dizer...pq qqr coisa q eu falar sobre o texto, no fim vai ser complementado com um "Demais" (bom demais, imprevisível demais, gostoso demais, sensacional demais...).
"vérigúdi, mai darlim!"

E só um trecho q me fez rir:
"nem ninguém pra me assaltar ou bater na minha traseira (tenho certeza que tem gente que vive pensando nisso no trânsito)"
Oi, sou eu! hahahah

bjotchau

Donnie disse...

Ah, essa vida sempre desmonta a nossa armadura...