1 de jul. de 2010

REescrita

Eu sou uma grande rasura. Escrita, rabiscada, amassada. Na minha história não há nada de perfeito, até agora. Não há nada que não merecesse ser reescrito, escrito com novas palavras, escrito de maneira diferente, escrito dizendo mais ou menos.

Estou escrita e em cima de mim há um traço que me rabisca. Estou entre parênteses. Em seguida, estou escrita de outra forma, melhor que a anterior. Eu sou uma evolução de mim mesma, palavra após palavra.

Eu poderia ter um título melhor, outro desenrolar, outro final. Mas sou assim, um rascunho de mim.
Uma grande rasura, sem pretensão de ser sempre lida, sempre entendida, sempre sentida.

22 de jun. de 2010

O resto do que restou

O que mais me resta desse resto que restou?
Me resta uma aresta não aparada que você deixou
Me resta um pouco de amor, o restante do que restou
Me resta o resto de carinho, porque a maioria se dissipou
O resto de esperança que ainda não terminou
Me resta uma frase na cabeça, que a água do rosto não lavou
Me resta um pouco de vazio que o tempo não ocupou
O resto da frase que não se completou
O resto do silêncio que a vida cuidou

17 de jun. de 2010

Enquanto vivi

Cada vírgula do meu dia faz lembrar-me de ti.
Embora nenhuma lembrança tua faça parte de qualquer uma delas.

Dormias com teu corpo encaixado ao meu.
Enquanto eu, acordada, permitia meu corpo ser fagocitado pelo teu.
Fui metade enquanto em ti havia um.
Fui nós por nós dois.

Me entreguei enquanto te protegias.
Me apaixonei enquanto gostavas de mim.
Te amei enquanto me adoravas.

Te dediquei em silêncio ao menos uma frase de todas as músicas que ouvi.
Fiz isso à distância, enquanto te afastavas de mim.

Hoje sei que não vivi tudo que vi.
E que tudo que vivi, não vi.
Fantasiei porque acreditei.
E por isso, sim: Permiti, fui, dediquei, senti...
Com ou sem ti, enquanto isso, eu vivi.

*20/05/2010

11 de mai. de 2010

Vida descartável

Sua vida expira quando?
Viver com hora marcada,
Tudo com momento certo para ser esquecido

Felicidade: consumir em até 3 dias, depois de aberta
Viva logo, senão estraga
E lembre de manter-se sempre em lugar arejado

Sua memória é reciclável?
Você a consome, joga no lixo
e ela renasce com outro nome, repaginada?

Uma vida descartável,
Pra se viver num gole só

Uma vida descartável
Das relações, dos aprendizados
Dos relacionamentos, dos momentos passados

9 de mai. de 2010

Sinto (que) falta

Sinto tanta falta.
Falta de seus beijos, abraços, presença, perfume...do seu sorriso.

Sinto falta das noites terminadas em encontros e dos domingos de preguiça compartilhada.
Muita falta das ligações inesperadas e dos jantares marcados de repente durante a semana pra matar saudade. Falta de provocar saudade.
Quanta falta me faz receber aqueles smss de madrugada dizendo pensar em nós.
Falta dos e-mails de assunto inventado e das músicas dedicadas a mim.
Falta as surpresas planejadas pra me fazer sorrir.

Também faz falta ter seu colo quando as coisas se complicam e seu aconchego que me garante que vai ficar tudo bem. Falta ver sua preocupação e empenho em me animar.
Sem falar nos botecos e cervejas pra comemorar todas as conquistas suas ou minhas.

O seu jeito de me olhar e elogiar e de dizer a coisa certa quando eu (não) preciso ouvir.
Sinto falta daquela viagem, dos passeios e das fotos. Falta as risadas.

Quanta falta me faz dividirmos as coisas.
A companhia nas festas de família ou nos bares com os amigos. Falta de achar tudo mais divertido com você.
Falta seus convites e sua companhia.

Falta de ter você aqui.
Falta...falta muito! Falta tudo que nunca tive de você.
Na minha vida, falta ter você.

4 de mai. de 2010

O que são as coisas

Músicas são como filmes, que são como poesias, que são como leituras, que são como as lembranças de você: cada vez que repasso por elas reparo em algo que passou desapercebido, que fugiu dos meus olhos. E ao final, tem sempre um sorriso.

Notícias são como diálogos, que são como brigas, que são como aulas, que são como as conversas com você: cada vez que empresto energia à elas aprendo algo novo, expando meus horizontes e dou novos sentidos à percepções já estabelecidas.

Viagens são como a infância, que é como férias, que são como terminar as fases do videogame, que é como estar com você: a cada momento passado da vontade de voltar pro começo, só pra repetir tudo outra vez. Dá saudade e faz a gente querer mais, só mais um pouquinho, prometo. Depois do fim, a gente se sente interrompido, forçado a manter só lembranças, contra nossa vontade. Mas sempre, ao final, tem um sorriso.

19 de abr. de 2010

E era a vida

Interior
O mato, a mata
Cachoeira
Pula você
Agora eu
E de novo
Roupa molhada
Molhando a mata
Garupa de moto
Padaria fechada
E era a vida
Pacata, parada
E na capital
Fumaça
Ônibus que vem,
Carro que vai
E a aula
Cerveja barata
E fumaça
Dia que vira noite
Água de chuveiro
Ou da rua entupindo bueiro
Veio o avião
Viagem grande
Sem data marcada
O idioma
O medo
O nada
O cinza
O gelo
Cerveja gelada
E era a vida
Caminho
Caminhada
O corpo na grama
Sem roupa
Sem nada
E a água
De lago
Não cachoeira
E a água
De lago
Não do chuveiro
E a água
Sem graça
Não de bueiro
Saudade de casa
E era a vida
Cinco anos
Saudade da água
Seis anos
E era a vida
Pula você
Depois vou eu
Saudade de nada
E era a vida
E o avião
E o coração
E a chegada
E a saudade
E a obrigação
E a cachoeira
E era a vida
Pacata, parada

15 de abr. de 2010

O Sol

De manhã tem o sol

No morro

No barco

O anzol

Há areia para o mar

E a criança a nadar

O milho

O velho

O zinco

O cachorro

Que corre

O sol da manhã

Doura o pêlo

Queima a pele

O asfalto

Esquenta

A manhã

Pedra solta

A calçada

O pai e a filha

Mãos dadas

O homem e a mulher

Dedos entrelaçados

Nuca suada

O sol

Atrás do morro

Morre

Amanhã tem sol

De manhã

No barco

No bar

O sol

7 de abr. de 2010

Sentidos

Eu enxergo no escuro
Porque a luz está nos meus olhos.
Quando eu não vejo,
Não vejo porque não quero,
Pois enxergar está no meu sangue.

Se minha vista embaça,
Não demoro em fechar os olhos,
Reabri-los, lubrificá-los
E passo a ver de novo.

Se minha luz falha,
Eu sigo no tato,
Porque minhas mãos podem ver;
Quem manda no meu sentido é minha alma.

Eu sinto pelo calor, pela fibra
Eu posso sentir pela cor do sentido,
Pela pele, com ou seu pêlo
Pelo rosto, pelo toque na cara.

Se me perco do tato
Sigo no cheiro
Todos os aromas são conhecidos
Fumaças, velas, ventos
Cheiro de lembranças é sempre um cheiro

Se o faro falha
Ganho no som
Percebo o batuque
O barulho me envolve

Ecoa no peito, se espalha na boca
Se ordena na fala
Sente o som, o tom, o dom
Ouve, repara

Se o mundo ensurdece
Eu sinto sabores
O gosto de lembrar o som
O cheiro que me tem o ontem
O calor que me vem de dentro
A visão que me adoça e me acalma

Eu tenho meus sentidos
Eu sinto meus sentidos
Eu sigo meus sentidos

30 de mar. de 2010

Pode vir

Vem! Dá a mão! Você não vai cair.

Eu sei, é alto. Mas não olha lá pra baixo, não. Nem pra trás. Vem! Eu te ajudo.

Tem razão, você não pode pisar ali. Mas vem por aqui que eu te ensino o caminho.

Não, o monstro não vai te pegar! Não precisa ter medo. Eu te protejo.

Agora se joga aqui. Pode pular! Eu te seguro. Vem!

Viu? É mais fácil do que parece. Não é?

Ei! Onde você foi? Alô! Você tá aí?

Ufa! Onde você se meteu? Não sai mais de perto de mim! Eu fico preocupada. Levei um susto.

Barulho? Que barulho?

Ah! Esse barulho! É meu coração. Ele tá batendo forte só de pensar que eu pudesse ter te perdido aqui.

Pronto...passou. Você tá com medo ainda? Não precisa. Estamos aqui juntos de novo.

É...ali na frente é escuro. Assusta por que a gente não sabe o que tem lá. Mas pode vir. Vou te mostrar que não tem nada demais. Eu estou com você, pode vir. Confie em mim!

Eu? Não. Eu também não conheço direito esse lugar, mas a gente pode descobrir junto.

Vem! Dá a mão! Você não vai cair. Eu estou aqui.