22 de fev. de 2010

7h52.

Todos os dias o despertador toca às 7h00.
Aurora se levanta às 7h02, mas hoje teve preguiça, levantou às 7h06.
Diante do espelho do banheiro, lavou o creme facial noturno e desenrolou os bobs do cabelo.
Apesar dos baby-liss da vida, Aurora ainda prefere os bobs à moda antiga. Costuma dizer que assim os cachos ficam mais soltos e naturais.
Escovou os dentes e começou a se maquiar.
Base, pó, blush, delineador, rímel e gloss cor de boca. Bem simples, leve e natural.
Cabelo e maquiagem prontos, passou seu perfume francês e voltou ao quarto.
Diante do guarda-roupas aberto, escolheu o melhor modelo para a ocasião.
Vermelha, decotada, rendada, longa e as costas abertas. De seda, claro. Trocou seu pijama cor-de-rosa de coraçõezinhos pela melhor camisola com hobby combinando.
Hoje Aurora acordou inspirada.


Aurora preparou um café, e cortou um pedaço de bolo.
Como de costume, às 7h55 estava debruçada à janela para tomar seu café mirando o outro lado da rua.


7h57 lá vem ele.
Roberto, pontualmente atrasado e caminhando apressado.
Vem sempre tão elegante de terno e gravata, carregando sua pasta de couro e enfiando o celular no bolso.
Franzindo a testa, nitidamente preocupado com a hora, atravessa a rua, mas nunca deixa de abrir seu belo sorriso de dentes brancos e perfeitos e fazer brilhar seus verdes olhos ao lhe desejar:
“Bom dia, Aurora!”
“Bom dia, Roberto...”


E, tentando sobressaltar sua voz em meio a batidas tão fortes que seu coração insistia em disritimar, hoje arriscou um algo mais:
“...e bom trabalho!”


Roberto, mesmo atrasado, parou por um segundo, virou-se, agradeceu sorrindo e partiu.


Aurora ganhou seu dia.
Seu estômago eufórico desistiu do bolo.
Levou os restos para a cozinha, voltou ao quarto, vestiu novamente seu pijama de corações e voltou a dormir.
Ou pelo menos tentou, tanto quanto seu coração extasiado permitiu.


Aurora não trabalha.
Aurora vive de uma pequena, porém suficiente, herança.
Vive de herança e de amor.


Mas Aurora, em sua espera ansiosa por Roberto, nunca percebeu.
Nunca notou que, do mesmo lado da rua em que Roberto surge, encostado a um poste pichado há sempre um homem a observá-la.
Tão linda envolta em seu hobby, vive desviando com as mãos os fios de cabelo que a brisa da manhã gosta de enroscar em seus lábios.
Todos os dias, às 7h52, eu chego ao poste, e fico a aguardar o momento de minha bela Aurora nascer como um sol na janela.
Ah, Aurora....
Um dia eu vou criar coragem para atravessar a rua, te desejar bom dia e torcer para que você também espere que eu tenha um belo dia de trabalho.


Ah, Aurora!

7 comentários:

Nathy disse...

Ahhh, que coisa linda!

Anônimo disse...

amélia que me perdoa, mas... "ah, meu Deus, que saudade da aurora / aurora sim é que era mulher"

clap clap.

André Finhana disse...

Caramba, e o tanto que me surpreendi com o final?
Adoro textos que, de tão explicativos, me fazem imaginar a cena "em tempo real", na levada da leitura. E vc é mestre nisso. Parabéns. e não demore mais um ano, por favor.

Renata Ribeiro disse...

É, eu comentei a mesma coisa dos detalhes, Fi. Eu adoro quando consigo ver um fime ou uma fotografia na cabeça. Atóron!

Boa, Srta. Vanessa 'Falafel'. Por favor, volte a dividir o blog mais assiduamente comigo. Eu gosto de ler seus melaços e as surpresas como essa última. =)

Fê Nogueira disse...

Nossa meeeeeu!
Por favor escreva sempre!!! Achei sensacional esse texto.
Orgulhinhoooo!

Parabens!
Beijos

Daniel disse...

Uma marchinha pra relembrar o carnaval:

Se fosse sincera / Ô ô ô ô, Aurora
C
Veja só que bom que era / Ô ô ô ô , Aurora

Um lindo apartamento / Com porteiro e elevador

E ar refrigerado / Para os dias de calor/ Madame

Antes do nome / Você teria agora/ Ôôôô Aurora

parabéns, Rê. rico em detalhes, envolvente e sútil como um bom despertar...
adorei!

Vanessa Nassif disse...

Prazer, Vanessa Nassif. hahahaa