21 de jan. de 2009

Nunca é tarde demais para nada

É loucura total, mas a loucura é, muitas vezes, a coisa mais sã que fazemos enquanto vivos. Foi com esse pensamento que ela bateu asas e correu. Correu em direção ao trem das 23 que tava de saída.
- Segura, moço! Por favor!
Balançando a cabeça pra baixo, inclinando o queixo em direção ao pescoço, ela agradeceu.
Balançando a cabeça pra baixo, encostando a barba no pescoço, ele retribuiu.

A loucura não era pegar o trem das 23. A loucura em questão era o que ela ansiava ao chegar no Centro. Decidira passar uma noite dormindo na rua. Já havia desistido de fazer com que entendessem sua vontade, mas insistia em explicar para si mesma:
- É sim. Quero poder olhar para os olhos dessas pessoas que cruzam meu caminho todos os dias e, mesmo sem mencionar nada com a boca, dizer com os olhos: "Eu sei o que você passa. Eu te entendo.". E quero dizer isso com propriedade, gabarito. Não quero mentir ou fingir que entendo. É sim. Quero isso.

Escolheu o Centro da cidade porque, apesar de ser o centro, o núcleo da sua casa, o conhecera muito pouco, talvez nada. Não seria o mesmo que dormir na calçada da sua Rua. Tinha que ser lá. Afinal, ela sempre quis conhecer bem o Centro. Era a oportunidade ideal.

Ao chegar lá, não tratou de escolher logo um canto, catar um papelão ou jornais. Deu uma volta a pé. Viu um bar aberto, com umas 10 pessoas ou pouco mais. Pensou em entrar e tomar uma cerveja, mas preferiu guardar o dinheiro para o dejejum. Viu a igreja pixada e iluminada e fez o sinal da cruz. Na sequencia balançou a cabeça, em reprovação a si mesma. Se disse:
- Quem você quer enganar? Você não é católica, não é crente, não é nada. Até parece que sabe o que o sinal da cruz significa...

Sabia que era um sinal. Ouviu uma sirene, depois o pneu desafinando. Primeira reação: agachar. - Olha, uma moeda de 1 real! Fitou a moeda e depois um garotinho. Devia ter uns 4 anos ou mais, mas com aparência de menos. Sujinho, ele olhou como se fosse pedir a moeda, mas ela jogou pra cima e disse:
- Se vc pegar é tua!

Ele correu, seguindo o voo da moeda. Ela correu atrás, achando que também tinha 4 anos novamente. Ele repetiu a brincadeira e, com um sorriso, disse:
- Se você pegar é sua de novo. Ela poderia pegar a moeda ainda em movimento, mas fingiu que não viu onde cairia e deixou ele pegar.
- Ah, você pegou de novo. É tua, vai!

Fim da diversão, ele saiu correndo. Por um momento, ela acreditou que existisse emoção ali na rua, naquela hora, naquele vazio. Acreditou que talvez ele faria companhia à ela, afinal, ela estava sozinha, ele também. O menino nem deveria saber o que era emoção tampouco companhia. Estava deveras acostumado à solidão.

Continuando com o louco plano da noite, ela deitou aos pés de igreja, como quem busca proteção. Pensou em sair dali, a idéia soava tão mal como o sinal da cruz, mas por ali ficou. Dormiu como se estivesse em uma cama dura, porém sua. Não olhou no relógio, pois não tinha um consigo. No primeiro raio do dia, acordou. Transeuntes derramavam passos perto dela e a idéia de dormir com esse barulho e com o que poderia respingar dele dava mais medo que o silêncio da noite que passara. No mesmo bar de ontem, quebrou o jejum com um pão com manteiga. Era melhor que o da sua casa. Negou o copo de cana:
- Não, obrigada! Acabei de acordar. Com cara de "e daí", o homem retirou o copinho do balcão.

Já havia provado a si mesma o que queria. Com um toque de saudade, olhou pra trás e seguiu em frente com mais uma volta pelo bairro. Acabou na porta do trem das 11, que a levaria de volta para casa. Sentiu como se faltasse uma parte de si. Havia deixado muito dela naquele chão, naquele Centro. Consigo, levava ainda mais do que havia deixado. A experiência de ser uma estatística, mesmo que por algumas horas, realizou-a.

Enfim, poderia dizer "Sim, eu sei". Na onda dessa súbita alegria, uma tristeza avassaladora. Lembrou do menino, o de 4 anos, e o imaginou dizendo algo diferente e distante do que ela diria. O viu, sorrindo, pronunciar: "Sim, eu sou."

7 comentários:

Vanessa Nassif disse...

Q orgulho dessa mente inquieta independente da falta de ócio!

Como já disse, não tenho críticas.
Me sinto estasiada.

Lindo!

Bjossssssss

prolixa disse...

Adorei, Rê!

bjim,

CY

Ronas disse...

Meu.

Eu quero saber mais dessa noite que ela passou no centro.

Puta que pariu que texto gostoso de ler.

Grudei os olhos e só tirei 5 minutos depois que acabei.

Fiquei esse tempo viajando ainda na história.

Foi muito foda.

Parabéns.

Diego Costa disse...

Tem um toque de mistério. Envolvente.

Deveria escrever mais vezes, não acha?

PARABÉNS!

Digas Costa.//

Unknown disse...

parabens re, adorei...
eu me envolvi na histoeia

bjao

André Finhana disse...

Eu já devo ter dito isso em outras oportunidades, mas aí vai de novo.
As melhores músicas são aquelas que têm um clima, que despertam sentimentos e lembranças...
Com os textos não é diferente, os melhores são aqueles que te fazem se enfiar de cabeça e tudo naquelas palavras e te provocam o sentimento de fazer parte da história. Pontos como o da brincadeira da moeda, do desjejum e, principalmente o desfecho da história, me deixaram uma sensação de ansiedade e espera por um segundo capítulo dessa experiência.
Lindíssimo texto. Parabéns

Audrey Carvalho Pinto disse...

Adorei Renata!
Mto boa a história!
Sempre acreditei q um dos maiores problemas da humanidade é que as pessoas nunca se colocam no lugar do outro. é importante olhar por outras janelas!